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Uma década sem Artur da Távola



Soneto Inascido

O poema subjaz. Insiste sem existir 
Escapa durante a captura  
Vive do seu morrer.

O poema lateja.
É limbo, é limo,
Imperfeição enfrentada
Pecado original.

O poema viceja no oculto
Engendra-se em diluição
Desfaz-se ao apetecer.

O poema poreja flor e adaga 
E assassina o íncubo sentido. 

Existe para não ser.

(Artur da Távola) 

Por Fernando Moura Peixoto

“Artur da Távola – a pretexto ou a reboque da televisão – borda crônicas de nossa angústia cotidiana, tirando de cada átomo de significância televisionária uma lição ou pensação que seguramente constitui, para cada um dos seus leitores, uma pausa reflexiva no turbilhão insensato do dia a dia. É que nele há moral sem moralismo caturra e fechado, esperança sem embustes ilusionistas, cepticismo sem náusea, carinho psicolinguístico espontâneo capaz de captar os valores significados nos termos e vocábulos novos transados aqui e ali. Com isso, Artur da Távola tem sua legião de leitores gratos, em que me inscrevo grato.” ANTONIO HOUAISS (1915-1999).

De ascendência árabe, advogado, escritor, jornalista, cronista, poeta, radialista, musicólogo, professor, especialista em Educação, orador e político brasileiro – um dos fundadores do PSDB –, Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros – filho de Paulo de Deus Moretzsohn Monteiro de Barros e Madalena Koff Monteiro de Barros –, nasceu em 3 de janeiro de 1936 no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro – então Distrito Federal – e faleceu em 9 de maio de 2008, em sua residência no Leblon, na zona sul, aos 72 anos, vítima de problemas cardíacos.

Deputado estadual – no antigo estado da Guanabara – cassado pelo regime militar de 1964, depois de exilar-se na Bolívia e no Chile retornou ao Brasil em 1968. Teve uma coluna de televisão no jornal “Última Hora”, adotando o pseudônimo de Artur da Távola – em reverência ao Rei Arthur, da Távola Redonda –, para burlar a censura da época ao seu nome. Foi diretor de núcleo das revistas da Bloch Editores. Escreveu ainda sobre a mídia nos jornais “O Globo” e “O Dia”. Elegeu-se deputado federal, com mandato de 1987 a 1995 e senador da República, de 1995 a 2003. 

Em 2001 exerceu o cargo de secretário estadual de cultura da cidade do Rio de Janeiro – por nove meses. Funcionário mais antigo da Rádio MEC dirigiu a Rádio Roquette-Pinto FM. Apresentou o programa “Quem Tem Medo da Música Clássica?”, na TV Senado. Reitor de uma universidade particular carioca era torcedor apaixonado pelo Fluminense e um emérito namorador da Vida. Publicou 23 livros em sua existência.

Em primeiras núpcias desposou Anna Cristina Teixeira, filha do educador baiano Anísio Teixeira (1900-1971) – exponencial figura do pensamento social, responsável pelo conceito de escola pública no Brasil –, com quem teve três filhos, Leonardo, André e Eduardo. Casou-se pela segunda vez com Mirian Ripper Nogueira Lobo.

Artur da Távola – Paulo Alberto para os íntimos – dedicou-se a propagar a música, educação e cultura em nosso país. Partiu cedo demais e faz muita falta, principalmente, no complicado momento político que atravessamos. Não nos conhecíamos pessoalmente e “não fomos amigos falados” – como diria Monteiro Lobato (1882-1948) –, mas “fomos amigos escritos” por algum tempo.

FALA MESTRE ARTUR

“O livro inunda a gente de paternidade e criatividade. Ser lido é um privilégio. Procuro tratar com carinho cada leitor, pois a oferta de leitura no mundo é esmagadora. A crônica é uma forma contemporânea de filosofar.”

“O encontro e a ocupação do próprio espaço implica a descoberta (tranquila ou dolorosa) do que é realmente nosso e do que é dos outros e ficou preso dentro de nós. Aí está uma das descobertas fundamentais do ser humano.”

“Descobrir e ocupar o próprio espaço é encontrar a verdade existencial: no bom e no ruim que tenhamos. É ocupar com material próprio tudo o que somos e fazemos. É encontrar e seguir o próprio destino. Não o Destino, no sentido fatalista. Mas o destino no sentido da destinação profunda do que somos, fazemos e queremos.”

“Pela qualidade de sua obra alguém pode ficar famoso. Mas só pela qualidade de seu ser alguém fica querido. Ser querido e famoso nem sempre acontece com as pessoas, embora os dois conceitos sejam habitualmente confundidos.”

“Com a idade, fica-se mais sensível à beleza na proporção inversa à possibilidade de fruí-la... Tudo se torna mais refinado e sutil na percepção do homem idoso, quando refinado interiormente e sensível.”

“Nosso primeiro exame de consciência verdadeiro começa quando o pai morre. Nosso encontro com a morte inaugura-se com a dele. Nossa primeira noite sem proteção consciente dá-se quando ele já não está. E nunca somos mais sós que na primeira noite em que já não o temos. O pai é o mistério enquanto vida e a revelação depois de morto.”

“O carnaval é a brasilidade em sua forma aguda. A forma crônica a gente curte o ano inteiro. Ele concentra elementos muito profundos da constituição social e psicológica no atual estágio das raças que nos formaram.”

“No dia em que o homem se tornar inteligente e efetivamente livre, o esporte vai ser uma aferição exclusiva da autossuperação com a ajuda do outro, na condição de solidário e não de adversário. Deverá empenhar-se o máximo e o melhor que saiba. Como solidário e não como adversário, os desempenhos desportivos melhorarão enormemente.” 

“Chegará o dia em que, eliminada a competição, o homem encontrará prazer no esporte? Sonhando com ele, imagino-o, porém, impossível. Pelo menos no próximo milênio...”
“Eu acho o Rádio um instrumento que precisa ser redescoberto pelos intelectuais, pelo governo, pelos políticos, pelas pessoas de bom senso.”

“O Rádio pode fazer uma revolução cultural maior até do que a da televisão. Porque, pela natureza da comunicação radiofônica, ela é mais profunda do que a da TV. Primeiro, que a maioria dos aparelhos receptores hoje é também de uso individual, o que individualiza a recepção. Segundo, que o rádio trabalha no ouvido com a imaginação solta, e o ouvido é um sentido mais profundo do que o olho. O olho é muito volúvel, ele precisa normalmente de variação – você não consegue ficar meia hora olhando para o mesmo lugar. E isso faz com que a natureza profunda da comunicação radiofônica seja de uma penetração maior no ouvinte. Por isso ele é um instrumento cultural.”

“Muitas pessoas conseguem uma concessão de uma rádio, não exploram e alugam a rádio: botam o dinheiro no bolso sem fazer nada. A concessão não é dada para você alugar, para você explorar. Ela é dada pra você prestar um serviço público. Então eu penso que o setor de rádio no Brasil precisa de mudanças profundas e drásticas que nenhum governo até hoje teve coragem de fazer. Nem o governo do meu partido.” “O que a gente faz de bom é sempre o que menos aparece e o que mais frutifica longe e além de nós.”
ARTUR DA TÁVOLA (1936-2008) N.A. – Para se ler preferencialmente ao som de Antonio Vivaldi (1678-1741), compositor favorito de Artur da Távola. Compilação e edição: FMPeixoto (ABI 0952-C)

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