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Dona Maria Luiza e dois novos livros

Por Carlos Lúcio Gontijo*
         
"Nós nos transformamos no que somos”, ensina-nos Shakespeare. Na verdade, não devíamos ser tomados por qualquer surpresa diante da descoberta da face real das pessoas que nos decepcionam. Por mais que prestemos atenção nos seres humanos que nos rodeiam, não tem como nos salvarmos, ainda que não seja desejo nosso, de tomarmos assento junto a gente que tem a esperteza e a trapaça como alicerces máximos de seu mau caráter.
Assistimos hoje a veículos de comunicação mais rápidos e mais gigantescos em volume de informação, porém empobrecidos e, socialmente, menos compromissados. O conteúdo de toda informação tem por objetivo impregnar no ouvinte, no telespectador e no leitor ideologias políticas ou anseios de consumo, que ao final beneficiarão grupos hegemônicos que atuam por todos os cantos do mundo.
Não guardamos em nosso coração qualquer possibilidade de reversão do quadro, na medida em que observamos que o avanço do individualismo desregrado segue absorvendo a tudo e a todos. Cada vez mais as pessoas se comunicam e se inter-relacionam menos, pois o contato virtual avança como forma de contato e, também, de formação de uma multidão de gente antissocial, com tendência a desenvolver elevado grau de desprezo e falta de respeito para com o outro.
Hoje, fui visitar a sempre professora Maria Luiza Castro, que está em recuperação de uma queda. Ao cumprimentá-la, respeitando-a como se aluno dela ainda fôssemos, passou por nossa mente o filme das escolas de hoje, nas quais os estudantes metem medo e chegam a cometer ato de agressão contra seus professores, em atitude inimaginável no ambiente escolar de antigamente.
A mestra Maria Luiza nos disse, ainda convalescente em seu leito, que o baixo salário pago aos professores era imensamente compensado pela felicidade em encontrar seus ex-alunos vivendo a condição de cidadãos bem-sucedidos e levando na alma o sentimento de gratidão pelos ensinamentos recebidos, cobrindo-a de demonstrações de apreço e de carinho.
Saímos da casa de Dona Maria Luiza mergulhados naquela lição renovada, pois ainda agora, quando estamos prestes a lançar dois novos livros (“Lelé, a formiga travessa” e “Poesia de romance e outros versos”), temos a gratidão a nos guiar: vamos lançá-los, aqui em Santo Antônio do Monte, na “Pizzaria Koisa Nossa”, às 19 horas, numa segunda-feira, dia 7 de outubro, com trilha sonora do Los Hipertensos, exatamente pelo fato de os seus proprietários, desde os tempos do amigo Luís Antônio Bolina, destinarem uma parede inteira a um punhado de quadros com poemas de nossa autoria.
A conclusão de tudo é que, quanto mais caminhamos, mais nos encaminhamos na direção dos princípios morais e culturais que adquirimos no berço de nosso lar e das escolas pelas quais passamos. Ou seja, “nós nos transformamos no que somos”.

*Carlos Lúcio Gontijo é poeta, escritor e jornalista

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