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125 anos sem Antero de Quintal

A natureza em mim é conservadora, só o espírito é que é revolucionário.”
– ANTERO DE QUENTAL (em 1867)

Artigo: A tragédia em Antero de Quental, por Fernando Moura Peixoto

– JOSUÉ MONTELLO (1917 – 2016)
Em 2016 celebram-se os 125 anos de falecimento de Antero de Quental (1842 -1891), que forma, juntamente com Luís Vaz de Camões (1524 – 1580) e Manuel Maria du Bocage (1765 – 1805), a trindade maior dos sonetistas portugueses. E comemoram-se também os 174 anos de nascimento de “Santo Antero”, como o chamava o escritor Eça de Queiroz (1845 – 1900), seu compatriota e contemporâneo.
Surgir! ser astro e flor! onda e granito! / Luz e sombra! atração e pensamento! / um mesmo nome em tudo está escrito – // Eis quanto me ensinou a voz do vento.”(‘Panteísmo’)
Homem de gênio, pensador político, poeta filosófico, socialista místico e líder da mocidade acadêmica lusa de sua época – a ‘Questão Coimbrã’ e o movimento da ‘Geração de 70’ –, Antero Tarquínio de Quental nasceu em 18 de abril de 1842.
A meus olhos, és baça e lutuosa / E amarga ao coração, ó luz do dia, / Como tocha esquecida que alumia / Vagamente uma cripta monstruosa…” (‘Hino da manhã’)
Formado em Direito no ano de 1864 pela Universidade de Coimbra, e um dos fundadores do Partido Socialista PortuguêsAntero de Quental pôs fim à vida na noite de 11 de setembro de 1891, aos 49 anos, após forte crise nervosa – era portador de distúrbio bipolar.
Funérea Beatriz de mão gelada… / Mas única Beatriz consoladora!” (‘Elogio da morte’)
Depois de adquirir um revólver Lefaucheux numa loja de quinquilharias, o poeta cometeu suicídio, disparando duas vezes na cabeça, sentado em um banco, defronte ao Convento de Nossa Senhora da Esperança, no Passeio Público (Campo de São Francisco), na cidade de Ponta Delgada – sua terra natal –, capital da paradisíaca Ilha de São Miguel (cognominada “a Ilha Verde”), nos Açores. No muro, um pouco acima, em um dístico de pedra lavrada, sobreposta a uma âncora, via-se escrita a palavra “Esperança”. Era tudo o que ele tinha almejado.
Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração. / Do palácio encantado da Ilusão / Desci a passo e passo a escada estreita // Dorme o teu sono, coração liberto, / Dorme na mão de Deus eternamente!”(‘Na mão de Deus’)
– ANTERO DE QUENTAL (1842 – 1891)
A TRAGÉDIA DO POETA
A natureza em mim é conservadora, só o espírito é que é revolucionário.”
– ANTERO DE QUENTAL (em 1867)
Poema escrito em 1977, inspirado no ensaio “A Tragédia Comotiva de Antero”, publicado no livro O ESPÍRITO HUMANO – 4ª edição, Livraria São José, Guanabara, 1961 –, de autoria do eminente médico, literato e acadêmico Inaldo de Lyra Neves-Manta (1903 – 2000), que me presenteou um exemplar – quando eu tinha 21 anos –, de honrosa dedicatória: “Para a inteligência de Fernando Peixoto, com um abraço bem apertado. Rio, 1.6. 1967”.
E também A ARTE E A NEUROSE DE JOÃO DO RIO – 4ª edição, Livraria São José, 1960 – sobre Paulo Barreto (1881 – 1921) – jornalista, cronista, contista, teatrólogo e membro da Academia Brasileira de Letras – que iria influenciar definitivamente o pseudônimo que escolhi em 1977:‘João Praiano’. Mais uma vez Neves-Manta foi pródigo em elogios: “Para Fernando Peixoto e a sua curiosidade de jovem psicólogo. Rio, 20.11.1967”.
No ano seguinte, novo brinde literário: A ALMA DO HOMEM – 3ª edição, mesma livraria e ano de publicação do primeiro – e belos dizeres do escritor: “Para Fernando Peixoto, tão cioso de sua cultura. Rio, 1.4.1968”.
“jovem psicólogo” acabou enveredando pelo Jornalismo, mantendo como livros de cabeceira as obras do saudoso Doutor Inaldo de Lyra Neves-Manta – que, desde o ano 2000, deve estar psicanalisando oCriador, por certo um manancial inesgotável – um caso clássico de triplapersonalidade – às suas observações e críticas sempre pertinazes.

Duas balas ligeiras,
a ideia cristalizando,
tomando forma na mente.
A angústia o dominava,
as dúvidas o possuíam.
Crente e descrente,
sua alma sofria.

Duas balas fagueiras
na metafísica incerteza,
nas crises melancólicas,
nas posturas místicas,
no pessimismo filosófico.

Duas balas brejeiras
na crise existencial,
na dor física e moral,
na neurose do asceta,
na ambivalência do poeta.

Certa vez, em Paris,
ouviu de mestre Charcot:
Vous n’avez rien à l’épine;
vous avez une maladie de femme
transportée dans um corps d’homme;
c’est l’hystérisme”. (*)

Duas balas matreiras
poriam fim às aflições,
à loucura iminente,
à dualidade espiritual;
Por que ser, quando se não é?”

 Duas balas certeiras,
duas balas na cabeça.
Atira, não hesita,
estoura os miolos.
Foi-se o pensador genial,
agora descansa, em paz.
Repousa Antero de Quental.

(*)Tradução: “O senhor nada tem na espinha;
o senhor tem uma doença feminina
transportada num corpo masculino;
é o histerismo.”]
Considerado então um distúrbio mental predominantemente feminino, o‘histerismo’ incluía-se campo das ‘neuroses’ – ‘histeria de conversão’ e‘histeria de angústia’ – em meados do século 19, à época de Jean-Martin Charcot (1825 – 1893), cientista, professor e neurologistafrancês, e de seus discípulos, como o anatomopatologista austríacoSigmund Freud (1856 – 1939), neurologista que viria a fundar uma nova ciência, a Psicanálise. E com ela, a humanidade nunca mais seria a mesma…
AO DOUTOR NEVES-MANTA
Este trabalho é dedicado ao médico pernambucano I. de L. Neves-Manta (1903 – 2000) – como gostava de assinar, evitando assim um trocadilho,“delira”, com o seu sobrenome –, amigo de meu pai, um baiano de Salvador, criado em Penedo, Alagoas, o médico, radialista, jornalista e literato Perilo Galvão Peixoto (1913 – 2005).
Nunca mais estive com o ilustre psiquiatra, psicanalista, professor e acadêmico Neves-Manta. As últimas lembranças que dele tenho foram de livros seus – seminovos – à venda em um sebo na Praça do Lido, espalhados na calçada da Rua Belfort Roxo, em Copacabana, onde parece que residia, ao final do século passado.
Neves-Manta (1903-2000) 
UM ESCRITOR E A SUA OBRA”
O Sr. Neves-Manta constitui o tipo de homem que vive da inteligência e pela inteligência: médico, novelista, cultor das belas artes, das ciências abstratas e concretas.”
Adotou a psiquiatria como tendência espiritual e enveredou-se por dois ramos corolários da especialidade – a psicologia e especialmente a psicanálise. Desse fato origina-se a obra literária de Neves-Manta, cujo espírito se plasmou na análise psicológica das personagens de ficção e dos tipos tomados para os estudos críticos.”
(…) Neves-Manta já possui um público pessoal: está consagrado pela opinião culta, pois é um escritor triunfante.”
ANTÔNIO AUSTREGÉSILO (1876 – 1960), julho de 1934.

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