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Um cara poeta ativo tem o que contar


Rogério Salgado lança Poeta Ativistaautobiografia, e Sopro de Deus (poemas)


Por Vinícius Fernandes Cardoso

foto de capa do livro por Brenda Mars

Um depoimento, ainda que tardio

Q
uando Rogério me enviou um e-mail, ainda em 2014, dizendo-me que estava escrevendo a sua autobiografia e pedindo-me depoimento sobre ele, imaginei uma tarefa que casaria crítica literária e biografia, respondendo-o que eu estava atrasadíssimo na leitura dos seus poemas para atender a sua demanda, mas ele me replicou que não queria crítica literária e sim um depoimento sobre “a pessoa Rogério Salgado”, o que piorou a situação, devido ao temor que senti em falar dele. Confesso que fiquei desajeitado, pois imaginei um texto que viesse falar de defeitos e qualidades de um ser humano, algo sempre suspeito e perigoso.
Após a leitura de Poeta Ativista, sua autobiografia, percebi que aumentei demais minhas expectativas e exigências quanto a escrever o solicitado depoimento. A leitura é agradável, fluente. Há um capítulo dedicado aos depoimentos, onde várias pessoas, em textos simples, falam sobre o poeta do Padre Eustáquio/BH.
O que escrever sobre Rogério Salgado, ainda que tardiamente?

O pouco que sei

Conheço-o desde o 1º Belô Poético – Encontro Nacional de Poesia, realizado no belíssimo teatro da Fundação de Educação Artística em 2004, mas, de esguelha, sei que sua história é antiga, de quando eu nem era nascido. Só para ter-se uma ideia, quando eu tinha um aninho de idade, Rogério lançava a Editora e Revista Arte-Quintal, em 1984.
Ele é um dos cidadãos que lutaram pela não-privatização da fazenda que se tornou o bem sucedido Parque Lagoa do Nado, no Itapoã, bairro que estampa em estatísticas recentes como um de melhores para se morar em BH, graças ao parque, penso.
Ele é um dos fundadores do sarau mensal do citado parque, cuja fagulha espalhou-se por outros centros culturais de BH. Atualmente, há dezenas de saraus em BH e região metropolitana, realizados por uma geração vintanista que, ciente ou não, se escora nos ombros de pioneiros.
Fora isso, testemunhei e participei, direta ou indiretamente, de projetos realizados pelo casal Rogério Salgado e Virgilene Araújo, mas confesso humildemente que vim a conhecer melhor a trajetória de Rogério após a leitura da sua autobiografia, lançada na noite de 14 de abril de 2015, em quarteirão fechado na Savassi.   

Conversas e leituras

De conversas e leituras, eu sabia que Rogério teve uma trajetória difícil, tendo perdido seu irmão mais querido e sua própria mãe, a pianista Glória Salgado, muito cedo, na infância, o que deve ser traumático para qualquer ser humano. Sobre sua adolescência, eu nada sabia, só agora, pela autobiografia.
Fui topar seu nome, não a pessoa, por conta da revista e editora “Arte-Quintal”, um ponto de encontro alternativo da vida literária de Belo Horizonte nos anos 1980. Acontece que a editora Arte-Quintal publicou a melhor antologia do conto mineiro de todos os tempos, Flor de Vidro (1991), tendo eu ganhado um exemplar do livro das mãos do saudoso José Afrânio Moreira Duarte, poeta na juventude, contista, ensaísta, membro da Academia Mineira de Letras e reitor da Universidade Livre, projeto de extensão da Academia que perdura até hoje, aberto ao público em geral. Afrânio, como crítico literário, escrevia tanto sobre autores consagrados, quanto incentivava estreantes.

Flor de vidro

Embora eu não conhecesse a pessoa, topei com o nome de Rogério Salgado estampado na antologia Flor de Vidro, onde consta um conto seu, “Vaca na cabeça”, na página 279. Não é o único conto de Rogério que li, mas “Tontinho” também, que gerou o seu primeiro livro, cuja vendagem foi-lhe importante para sobreviver em fase difícil em BH, como suas memórias revelam.
Rogério, por vezes, passava-se por “chato”, ao propalar aos ventos viver da sua arte, fato que o orgulha; só gosto de lembrar que cada um possui uma trajetória própria e que há mais de uma forma de honrar as artes, inclusive, sem viver dela. Dito isso, quero crer que o poeta, ao exibir seus brios, busca também incentivar os neófitos indecisos, que é possível viver como artista no Brasil, desde que em pleno sacerdócio. Rogério é tenaz naquilo que faz, como todos aqueles que querem ver projetos não-lucrativos virem à tona.
Rogério me ensinou uma lição que nunca esqueci, inclusive, muito útil para olhar de forma crítica ações chamadas de “voluntárias”.
Suponha que será realizada uma empreitada qualquer. Muito bem, ela é por uma determinada causa, então, que ganhe a causa, sem ninguém embolsar nenhum centavo; agora, a partir do momento em que alguém ganhar tutu, que os outros que trabalharam também ganhem, em proporções devidas ao esforço. Ou ninguém ganha, ou todos ganham.
Diga-se de passagem, essa lição não está no seu livro.
Poeta Ativista permite uma leitura leve e fluente, nos faz mais pertencentes à história cultural e literária belo-horizontina e mineira, especialmente aos escritores e poetas da província; através da sua leitura, conseguimos atar alguns nós: quem conhecia quem, quem era amigo de quem, quem era da geração de quem, quem fez isso, quem fez aquilo, conhecimento interpessoal-sociológico que serve de contraponto ao anonimato reinante nas sociedades de massa, aglomerada solidão onde ninguém reconhece ninguém; contraponto à anomia, ao mundinho azul do Facebook, onde há muito amigo e pouca amizade. Rogério é homem de amigos de carne e osso de todas as horas, como Wagner Torres, prefaciador de Poeta Ativista.

Sopro de Deus

É bom lembrar que a edição encerra duas obras, parecendo promoção “Leve duas, pague uma!“. Após as páginas dedicadas a Poeta Ativista, segue Sopro de Deus, poemas que versam sobre vários assuntos: infância, nostalgia, perdas, amizade, amor e da relação do poeta com o divino, em especial o poema que dá título ao conjunto.
Sopro de Deus é prefaciado pelo poeta Luiz Otávio Oliani e pela psicóloga Sonia Maria Horta Freire.
   Por fim, com a palavra, o poeta:

SIMPLES

Minha vida é feita de perdas
primeiro meu pai, segundo minha mãe
depois meu irmão e muitos amigos
como também vários amores

mas ganhei a poesia
forma simples de dizer sem medo
aquilo que acontece dentro de mim
sendo isso tão importante
que se eu não a tivesse
não poderia expressar
que minha história é feita de perdas...


Rogério Salgado nasceu em Campos de Goitacazes/RJ, em 1975e vive em BH. Poeta, autor de 20 livros, entre outras realizações. O homem continua pirraçando por aí.   



Obras minhas no Clube dos Autores: https://clubedeautores.com.br/authors/64275
Blog Folhetim Volantehttp://folhetimvolante.blogspot.com 

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